Citações #97 — Uma canção para a libélula

Uma canção para a libélula, da Juliana Daglio, foi minha primeira leitura de 2025 e, ainda que quase um ano tenha se passado, ainda há ecos destas páginas em mim. Como mencionei na resenha, trata-se de uma obra densa, porque aborda temas como a dor (física e emocional):

“Quando uma dor pede para levar embora suas lembranças ruins, ela leva também a parte boa”

“Não havia amor no mundo que pudesse me salvar da dor cortante que já tinha roubado a vida dentro de mim”

“Naquele ínterim, eu compreendi com uma certeza quase palpável, que as vítimas da Depressão e do Suícidio não são apenas aqueles que sofrem”

“Ninguém sabia a tristeza atroz que estava dentro de mim, oca e funda como um abismo aberto dentro do peito”

“Às vezes, é só ouvindo ou lendo sobre a dor de outras pessoas que conseguimos encontrar saída para as nossas”

“Apesar da dor que carregava sobre os ombros, era bom me sentir ouvida”

“Talvez a dor seja inevitável. Algo que todos os seres vivos terão que passar eventualmente”

Ao longo da narrativa, descobrimos que muito dessa dor vem da perda e do luto.

“Quando você morre, mata também uma parte das pessoas que o amam”

“O mundo me deu um anjo e eu o deixei partir”

“O dia que conheci minha mulher, foi o mesmo em que a perdi”

“Talvez ainda houvesse algo em mim a ser salvo; um caco do que um dia eu fui”

“O frio, só o frio. Mas ele não foi suficiente para calar a voz da menina que eu fui…”

“A vida e a morte não se posicionam em lados opostos de um tabuleiro…”

“Quando você morre, mata também uma parte das pessoas que o amam”

Provavelmente, já deu para perceber que uma das temáticas centrais da obra é a depressão, que se faz presente sobretudo através da Vilã Cinzenta:

“Saí dali terminando de desmoronar, certa de que não havia tratamento nenhum que pudesse parar aquilo”

“Tinham me dito que os remédios iam fazer efeito com o tempo e eu me sentiria um pouco melhor, mas nada disso aconteceu”

“Mandar um depressivo ver as coisas de forma mais positiva é como pedir a um deficiente auditivo que ouça uma música…”

“A angústia trazida pela depressão causa um horror imenso, sem motivos concretos…”

“Nada é realmente belo, num patamar totalmente multicolorido, para quem tem a Depressão nas veias da mente”

“Ali estava a Vilã Cinzenta me sabotando novamente, me dizendo que nada seria como antes”

“Não há motivos para seguir em frente, não há galhos em que se apoiar quando se cai de cabeça no abismo dessa Vilã”

Esta é uma temática que também nos conduz à solidão e ao vazio existencial:

“É dolorosamente solitário não ser compreendido”

“É preciso ter coragem para enfrentar a sobrevivência”

Para tratar dos assuntos até aqui mencionados, é preciso falar, também, das relações humanas, cruciais para esta história:

“Alex e Marcos viveram treze anos com um fantasma meu pairando na casa”

“Suas palavras ecoavam, derrubando as muralhas que eu tinha construído ao redor de mim”

 “Pessoas tendem a dramatizar, algo que sempre me incomodou nas relações sociais”

“Ninguém é bom ou mau, tampouco uma mistura exata. As pessoas são complexas…”

Mas também há espaço para o amor:

“Pessoas como eu, que crescem frias, distantes e cheias de complexidades, quando cedem não amam pouco, mas poucos”

“Estar apaixonada era correr o risco de ser rejeitada”

“Era sobre aquilo que as pessoas apaixonadas escreviam em canções…”

“De alguma forma ser forte por outra pessoa era mais fácil do que ser forte por mim mesma”

E há espaço para a poesia, na forma de música, de arte, de expressão.

“A música era minha liberdade”

“Usei a música para fugir de alguns dos meus problemas, para realmente não ter que enfrentá-los”

“A canção da Libélula era um fragmento perdido da minha alma”

“Certas mensagens são mais eficazes se ditas sem palavras”

Um livro introspectivo, que nos faz refletir, também, sobre autoconhecimento:

“A verdade fere, mas liberta”

“Não queria me identificar com aquilo. Era humilhante e doloroso”

“Eu não queria mais ser eu, porque não queria pôr outra pessoa quebrada no mundo”

“As cicatrizes não são algo para se exibir, mas podemos usar as nossas para evitar as dos outros”

“— Superar, Vanessa — retrucou de imediato. — Não é esquecer e nem passar por cima do que aconteceu”

“É nos momentos que precedem à loucura que toda a sensatez se volta para a realidade da vida”

“Não importa em qual lugar dessa cidade eu esteja, meu passado vai sempre me perseguir”

Apesar das muitas frases que trouxe aqui, ainda há muito a se explorar na leitura de Uma canção para a libélula, então, se você se interessou, não deixe de procurar.

Pessoas normais — Sally Rooney

Título: Pessoas Normais 
Original: Normal People
Autora: Sally Rooney
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 264 
Ano: 2019
Tradução: Débora Landsberg

Sinopse

Na escola, no interior da Irlanda, Connell e Marianne fingem não se conhecer. Ele é a estrela do time de futebol, ela é solitária e preza por sua privacidade. Mas a mãe de Connell trabalha como empregada na casa dos pais de Marianne, e quando o garoto vai buscar a mãe depois do expediente, uma conexão estranha e indelével cresce entre os dois adolescentes ― contudo, um deles está determinado a esconder a relação.

Um ano depois, ambos estão na universidade, em Dublin. Marianne encontrou seu lugar em um novo mundo enquanto Connell fica à margem, tímido e inseguro. Ao longo dos anos da graduação, os dois permanecem próximos, como linhas que se encontram e separam conforme as oportunidades da vida. Porém, enquanto Marianne se embrenha em um espiral de autodestruição e Connell começa a duvidar do sentido de suas escolhas, eles precisam entender até que ponto estão dispostos a ir para salvar um ao outro. Uma história de amor entre duas pessoas que tentam ficar separadas, mas descobrem que isso pode ser mais difícil do que tinham imaginado.

Resenha

Pessoas normais foi um livro que, para mim, pareceu demorar demais para chegar ao ponto, mas tendo concluído a leitura, acredito que o tempo dele é na medida para assimilar certos sentimentos que a obra busca transmitir.

“Os sentimentos eram suprimidos com tamanho cuidado na vida cotidiana, forçados a caber em espaços cada vez menores, que acontecimentos aparentemente banais tomavam uma importância insana e assustadora”

A narrativa nos conduz, aos poucos, a uma reflexão sobre a sociedade e os tempos que vivemos, fazendo isso através de uma história que poderia ser extremamente banal, mas que, no final das contas, não é. Ou melhor, é, só que isso não a torna menos necessária

“Bom, sempre é fácil pensar em razões para não se fazer alguma coisa”

A história é narrada em terceira pessoa, com diversos diálogos, e num ritmo que é quase um fluxo de consciência. Algo nessa combinação me incomodou, mas não consegui definir exatamente o quê.

“Muitas pessoas realmente a odeiam”

Os protagonistas são dois: Connell Waldron e Marianne Sheridan.

“Quer dizer, você nunca vai conhecer de verdade a outra pessoa, e coisa e tal”

Connell é um garoto que, apesar de pobre, é relativamente bem popular na escola, principalmente por suas habilidades esportivas.

“Connell gostaria de saber como as outras pessoas conduziam suas vidas particulares, para que pudesse copiar seus exemplos”

Marianne, por sua vez, encontra-se no lado oposto da sociabilidade: considerada esquisita, ninguém faz muita questão de se aproximar dela, assim como ela não faz questão de se aproximar dos outros. 

“Marianne tinha uma vida drasticamente livre, ele percebia. Ele estava imobilizado por várias razões. Ele se importava com o que os outros pensavam dele”

Ao menos na aparência é assim. Mas a verdade é que a mãe de Connell trabalha na casa de Marianne e isso acaba por aproximá-los.

“Estar sozinho com ela é como abrir uma porta para fora da vida normal e fechá-la depois de passar”

Além disso, a história começa quando ambos estão no último ano da escola, mas a situação muda quando vão para a faculdade: Marianne torna-se popular, enquanto Connell vê-se à margem.

“Ele não é do tipo que se sente confortável confiando nos outros, ou exigindo coisas deles”

E é aqui que as coisas vão ficando interessantes, porque somos, aos poucos, arrastados para uma narrativa que vai se tornando complexa justamente por retratar a complexidade humana: angústias, amores, autoconhecimento, crises, segredos.

“Se as pessoas pareciam agir despropositadamente no luto, era porque a vida humana era despropositada, e esta era a verdade que o luto revelava”

Os protagonistas são jovens, sentem-se perdidos em momentos diferentes e por causas diversas. Mas, no fundo, são humanos, possuem tanto em comum

“Seria tarde demais para falar que queria ficar com ela, isso era claro, mas quando havia ficado tarde demais?”

Por diversas vezes, senti vontade de chacoalhar os dois, mas a verdade é que isso só é possível porque vemos de fora o desenrolar dos fatos. No fundo, já fomos (ou ainda somos) Connell e Marianne.

“Parece intelectualmente frívolo se preocupar com pessoas ficcionais se casando. Mas é isso: a literatura o comove”

O tom narrativo parece acompanhar o clima do local onde se passa a história: no interior da Irlanda em um primeiro momento, a história é melancólica e lenta; e em Dublin, quando os jovens vão para a faculdade, as coisas começam a acelerar.

“A vida propicia esses momentos de alegria, apesar de tudo”

A história se passa em cerca de quatro anos e é interessante acompanhar o quanto as coisas podem mudar, ir e voltar, neste espaço temporal. São muitos momentos e reflexões, não apenas para os protagonistas, mas também para nós, que os acompanhamos nesta jornada. 

“Ele não tem certeza do que é permitido que amigos curtam uns nos outros”

Sendo Pessoas normais um livro que divide opiniões, gostaria de saber: você já leu? O que achou?

Tatianices recomenda [22] — Clube Literacidade

Mesmo sendo apaixonada por ler (o que não é segredo para ninguém), tenho certa dificuldade com clubes do livro

Acho a ideia incrível, mas não para mim. Ainda sou muito adepta da leitura como um momento meu, um instante silencioso em meio caos. Sem contar que gosto de deixar o livro me escolher (e não o contrário) e ler no meu ritmo

Ainda assim, sempre sonhei com a possibilidade da leitura me aproximar dos outros, me fazer conhecer pessoas. Algo não tão surreal, se pensarmos que já frequentei diversos eventos literários e adorei cada um deles. Mas estar num evento literário não significa… Ler!

A Nati, porém, conseguiu pensar numa maneira de transformar o momento da leitura em si — aquela leitura do jeito que eu gosto, silenciosa, no meu ritmo, minha — em algo mais social. E eu estou falando do Clube Literacidade

A proposta é simples e, ao mesmo tempo, incrivelmente maravilhosa: uma vez por mês nos reunimos para ler, cada um o seu livro. A ideia não é discutir sobre uma mesma obra — ainda que você possa comentar com alguém sobre o que está lendo e ouvir a pessoa contar sobre a própria leitura — mas simplesmente compartilhar um mesmo espaço e tempo enquanto se lê. E depois ainda pode rolar uma extensão do encontro num cafezinho (afinal, ler também dá fome!).

Aquela atividade tão solitária, torna-se um pouco mais social: nos faz sair de casa, conhecer novos lugares na cidade — porque, sim, cada reunião é em um lugar diferente — encontrar (e, por que não, conhecer) pessoas e, um dos motes do projeto, passar um tempo longe do celular

Com o Clube Literacidade, a Nati quer incentivar as pessoas a ler (seja quem tá começando e se distrai facilmente com as redes sociais, seja quem quer retomar um hábito perdido, seja quem já é um leitor assíduo, mas quer viver esse momento de maneira menos solitária) e também quer mostrar que todo lugar pode ser um bom lugar para sentar e ler

Se você achou essa ideia boa (e ela é mesmo), saiba mais lendo o post de apresentação do Clube Literacidade, escrito pela Nati e, claro, fique por dentro das novidades se inscrevendo na sua newsletter. Por lá você poderá saber a data e o local dos próximos encontros (o de outubro/2025 será no Parque Augusta, dia 25!).

E se você não é de São Paulo, mas adorou a ideia, por que não começar a pensar numa forma de replicá-la na sua cidade?

Agora eu entendo — Pam Gonçalves

Título: Agora eu entendo: um conto de natal 
Autora: Pam Gonçalves
Editora: Agência Página 7
Páginas: 21
Ano: 2019 

Sinopse

Bianca não aguenta mais as brigas de família durante as festas de fim de ano. Por isso, ela decidiu passar o Natal sozinha, ou quase, já que sua gata terrorista a acompanhará na maratona de filmes do Harry Potter. Mas o que a garota não esperava era que o destino iria ensiná-la a ser mais paciente e compreensiva com aqueles que a amam.

Resenha

A leitura da vez pode parecer um pouco fora de época, mas Agora eu entendo não é apenas um conto de Natal

Cansada das brigas familiares, Bianca decide passar esta festividade sozinha

“Eu já fui a menina que amava o Natal”

Contrariando todas as expectativas — de familiares e amigos — a protagonista não muda de ideia, ainda que algumas dúvidas a acompanhassem

“Será que me sentiria sozinha? Trocar as brigas pela solidão valeria a pena?”

Não tenho dúvidas de que muitos brasileiros podem se identificar com esta história, o que, por si só, já valeria a leitura.

“Cheguei à conclusão que precisava tentar. Esse um ano morando sozinha não foi fácil. Levar um pé-na-bunda poucos dias antes do carnaval também não ajudou muito, mas entendi que era exatamente isso que eu precisava. Estar comigo. Sempre dependi muito de outras pessoas, da opinião, da presença, do incentivo. Estava na hora de tirar essa força de dentro de mim”

Como comentei no início, porém, a história não é apenas essa. O contexto não é tão simples ou banal quanto pode parecer em um primeiro momento.

“Você deve estar pensando: que garota amargurada!”

E ainda tem mais: um triste incidente acaba impactando as escolhas desta personagem, dando um novo rumo às suas reflexões.

“Como as coisas mudam tão rápido em tão pouco tempo?”

É por isso que a história aqui vai muito além de uma mocinha amargurada com o natal, nos fazendo refletir sobre família, escolhas e aquilo que realmente importa em nossas vidas, sobretudo quando pensamos em relacionamentos (de todo tipo).

“Agora eu entendo que na maior parte das vezes as pessoas não têm intenção de nos machucar. Mal sabem elas os efeitos que têm nas nossas vidas. O que me resta é aproveitar o tempo que eu tenho com todas elas”

Narrado em primeira pessoa, é muito fácil tomarmos partido da protagonista, o que traz ainda mais surpresa para o desfecho dessa história. 

“Eu não gostava de silêncio. Era sufocante lidar com os próprios pensamentos”

Pam Gonçalves também é autora de diversas outras obras e você pode acompanhar o trabalho da autora através de suas redes sociais (Instagram | Youtube | Newsletter).

Citações #96 — Um milhão de finais felizes

Demorei tempo demais para finalmente conhecer a escrita do Vitor Martins, mas já dizia o ditado “antes tarde do que nunca” (até porque seria triste demais passar por essa vida sem nunca ler nada do autor).

Um milhão de finais felizes foi publicado em 2018 e, de maneira leve — mas ainda tão necessária hoje — consegue abordar temas de extrema importância, falando, por exemplo, sobre ansiedade

“Será que algum dia no futuro meus problemas de hoje também parecerão pequenos?”

“Percebo que esse é meu ideal de felicidade. Estar junto sem medo de que alguma coisa ruim vá acontecer a qualquer momento”

Também retrata as dificuldades da vida, os sentimentos e a força que cada um pode ter dentro de si.

“— Eu sei que eu ainda estou meio quebrado por dentro, mas eu não sou frágil”

Outra temática que permeia toda a obra (e não apenas essa, mas tantas outras do autor) é o da homofobia

“Saber que meu pai prefere um filho drogado do que um filho gay me causa uma dor diferente de todas as dores que eu já senti”

Se você quer saber mais sobre esta história, clique abaixo para ler a resenha completa

Neros — Mila Maia

Título: Neros 
Autora: Mila Maia
Editora: Publicação independente
Páginas: 24
Ano: 2017

Sinopse

Éramos os únicos.

O destino do nosso planeta dependia de nós.

Se estivéssemos juntos seria mais fácil, porém fomos separados logo que chegamos aqui, e agora tentávamos nos adaptar nesse planeta estranho.

A Terra.

Graças à minha habilidade conseguia lembrar de tudo, mas duvidava que ele se lembrasse de qualquer coisa.

Precisava encontrá-lo e arrumar um jeito de voltarmos para Neros, era a única maneira de continuarmos vivos.

Só tínhamos três dias para deter Hunter antes que ele acabasse com tudo.

Resenha

Não é só pelo fato de se tratar de um conto que a leitura de Neros é rápida, mas também porque a história em si — ainda que breve — nos prende e instiga.

“John e eu éramos os últimos sobreviventes do nosso planeta, e tentávamos agora nos adaptar nesse planeta estranho”

A Terra não é mais o que conhecemos e é nesse planeta estranho que os protagonistas desta história aterrisam.

“Era notável a falta de afeto que as pessoas desse mundo tinham um com o outro, eles não se tocavam ou falavam, se ignoravam constantemente”

Em Neros, as pessoas têm poderes especiais. Ao menos, a maioria. E não ter poderes – ou dependendo do poder que se tem — é possível que aconteça aquilo que, infelizmente, acontece muito por aqui também: o preconceito

“Quando Norah havia sentido Hunter se aproximando, ela teve uma visão onde nós dois salvaríamos toda a Neros da destruição. Ao revelar isso para os meus pais, eles se mostraram surpresos, afinal, meu poder não era extraordinário, era até comum, porém ele salvaria nosso planeta”

Mas está história é também sobre isso: sobre como cada pessoa, com seu jeito único, pode ser essencial

“Graças a minha super inteligência e telecinese, conseguia descobrir tudo sobre qualquer coisa ou pessoa, e também movimentá-las, sem qualquer interação física. Essa era a minha habilidade, todos em meu planeta tinham habilidades especiais”

Além disso, nas poucas páginas desta história, mergulhamos em uma narrativa de autoconhecimento e com pitadas de romance.

“Quando estávamos um com o outro nos sentíamos normais, não tínhamos defeitos e o mais importante, não julgávamos um ao outro”

Uma ótima leitura para realizar rapidamente e, ao mesmo tempo, deixar a cabeça fervilhando de ideias.

“Hunter destruiria tudo o que ainda restava de Neros se eu não estivesse lá para impedir, precisava manter nosso planeta vivo, mas só tinha setenta e duas horas, esse era o tempo que levaria para ele devorar todo o planeta”

Infelizmente, a obra não está mais disponível, mas siga a autora em suas redes sociais para conhecer outros livros dela.

Citações #95 — Novelion: a ascensão de uma estrela

Novelion, do Lucas Luyu, foi uma inesperada e grata leitura realizada no último ano.

“— Se são más línguas, por que escuta?

— Por que ainda são línguas?”

O livro, publicado em 2019, foi capaz de me envolver e me deixar com vontade de seguir adiante na série.

“A fagulha foi solta. O caos está presente; só não vê quem não quer”

A premissa é bem interessante: mergulhamos em uma sociedade dividida em signos e na qual é preciso conquistar o direito de viver. Para isso, portanto, os jovens precisam passar pela Seleção

“Eu sempre acreditei estar preparado para a seleção, mas agora que ela está tão próxima não sei dizer ao certo se algum dia estive”

“Novelion é o motivo da nossa existência. Eles mandam em tudo”

“Na cabeça dele, devo ter sido esfaqueado umas trinta vezes. Na minha, ele é quem está sendo esfaqueado. Isso é a Seleção Ultra-humana”

“Incrível como eles gostam de tornar nossas vidas um reality show amaldiçoado”

“No fundo, a seleção tem a ver com isso. Ou você manipula e se torna um dominante, ou é manipulado e vira o dominado”

“Parece que a garota mascarada estava certa; a Seleção Ultra-humana não é um conto de fadas. É um conto de horror”

Uma história bem ao estilo Jogos Vorazes, mas que acrescenta algumas camadas interessantes, como usar as características dos signos do zodíaco para construir os personagens

“Ele sabe que eu estou viajando além da mesa e resolve não me incomodar. Um pisciano entende um pisciano. E como entende”

“O maior inimigo de um pisciano é a própria mente dele”

“— Para onde é que os piscianos vão quando ficam olhando para o nada?”

“Eu sinto um pressentimento ruim. E quando nós, piscianos sentimos isso, significa que algo vai dar ruim. Bem ruim”

“É claro que não refletimos inteiramente as qualidades e defeitos do nosso signo de origem, entretanto, vê-lo da forma como é, me faz repensar na organização da sociedade”

“Escavei um poço gigantesco e enterrei meu lado sensível há quase dez anos. Em uma única noite, a mascarada conseguiu desenterrá-lo. Eu odeio tanto o fato de amar ser pisciano”

Neste tipo de narrativa, não poderia faltar, também, o conflito político.

“Parece que estou envolvido no meio de um jogo político pelo controle de Novelion. Um jogo, cuja principal arma é o assassinato”

“Tentar entender Novelion é o mesmo que entrar num labirinto”

“Por quê? Por que ela está fazendo isso? Será que a Cúpula a mandou propositalmente pra me matar?”

Algumas doses de ironia tornam a leitura ainda melhor.

“Eu não fazia ideia que cobras sorriam, até vê-lo”

“O negócio é que os humanos sempre acharam que exploravam o espaço quando, na verdade, nunca haviam ido mais longe que a lua”

Há, ainda, espaço para introspecção.

“É da dificuldade que nasce a necessidade”

“Que tipo de pessoa eu seria se acabasse com o sorriso dela?”

“Eu preciso meditar. Eu preciso me deitar. Eu preciso de um tempo sozinho. Eu preciso voltar para a minha bolha”

“Eu estou vivo e ao mesmo tempo morto. Não tenho ânimo. Quero chorar por um motivo desconhecido. Quero ser fraco e não forte. Quero desistir e dizer que não devia estar aqui. Mas tem algo dentro de mim, logo atrás da camada de dor que envelopa meu coração e diz que estou onde deveria estar”

E, claro, para a dor.

“É doloroso demais pensar em algo que você não sabe se existe”

“— A dor é passageira, não se preocupe. Tudo na vida é passageiro, mas aquela dor perdura por um longo tempo”

“Viver é doloroso”

Se você se interessou por essa história, leia a resenha completa clicando abaixo.

Em tuas mãos — Michelle Passos

Título: Em tuas mãos: agora o destino depende somente dele (Duologia “O jogador e a bailarina”, livro 2) 
Autora: Michelle Passos
Editora: Publicação independente
Páginas: 382
Ano: 2016 

Sinopse

Marina está arrasada. Depois de ter seu sonho destruído por um bailarino que sempre admirou, ela precisa lidar com o fato de que o namorado, Fred, tomou atitudes no passado que não condizem com o cara pelo qual se apaixonou ao chegar em São Miguel.

Depois de resolver dar uma chance para que Fred não cometa os mesmos erros, Marina é pega de surpresa pela vida mais uma vez: Leandro, seu cunhado, lhe conta um segredo que irá mudar não só a vida dele, mas a de todos ao seu redor. Junto com o peso da notícia que ela jamais pensou receber, Marina precisa resolver o seu passado que, sem aviso, vem bater à sua porta.

Fred acredita que poderá viver em paz com a namorada e o irmão depois de ter lhes contado toda a verdade, mas ele não esperava pela notícia que Leandro tem para lhe dar. O tempo é pequeno, os sentimentos são confusos e os caminhos mais curtos novamente parecem muito tentadores. Dividido entre o amor incondicional por Leandro e o ultimato que a garota da sua vida lhe dá, Fred terá que decidir rapidamente como o destino vai ser. E ele está completamente em tuas mãos.

Resenha

Como dito na resenha de Aos teus pés, Michelle Passos nos deixa ansiando pelo segundo volume da duologia O jogador e a bailarina e aqui estou para contar o que este volume tem a nos revelar (tentando não dar muito spoiler, mas não prometo nada). 

“Sorrio porque a vida é essa coisa louca que faz a gente sofrer e chorar, mas, antes de tudo, nos dá força e coragem para acreditar no impossível, e isso é o que eu guardo de lição sempre dentro do meu coração”

Por mais incrível que Fred seja, ele fez muitas escolhas questionáveis em sua vida e quando acha que vai poder consertar seus erros, a vida vem e lhe prega uma terrível peça de mau gosto. Fica até difícil criticá-lo, confesso.

“Eu realmente sei muito pouco da vida, menos ainda sobre os sacrifícios que nós fazemos por quem amamos”

Ao mesmo tempo, Marina está tentando se reerguer da enorme rasteira que levou e a vida parece não dar trégua: quando tudo parece que vai se ajeitar, uma nova onda derruba toda a paz dela.

“Não é só porque essa dor também é minha, mas sim porque eu daria de tudo para que essa não fosse a dor de ninguém”

Acho que essa é uma das coisas que torna esta leitura tão viciante e encantadora: o fato de que as coisas não são fáceis para os protagonistas, nos fazendo mergulhar numa história que poderia ser a nossa.

“Há dois dias que eu tenho chorado sozinha, fingindo estar bem, sorrindo para não mostrar o quanto estou destruída por dentro”

Além disso, eles não são perfeitos: cometem erros, lidam com as consequências de suas escolhas e são cheios de dúvidas.

“Meu filho… Nem sempre ser bom para uma pessoa é ser perfeito”

A amizade segue tendo papel de destaque na obra, bem como o amor e a necessidade de sermos transparentes e responsáveis por nossas escolhas.

“Mas o que eu não percebia é que ele nunca vai me deixar sozinha, ele é meu amigo e amigos são pra vida toda”

Uma narrativa com muitas reviravoltas para os personagens, com tramas se desenrolando sem deixar os acontecimentos confusos ou carregados demais.

“Um retrato de família normal, coisa que a gente nunca foi. É bom ver as coisas fazendo sentido pela primeira vez na vida, como nunca fez antes. Estamos tentando nos redimir de um erro que nunca foi nosso, mas que a gente sempre carregou em nossas costas”

Gostei de poder acompanhar mais da Marina e do Fred, não só no que vem logo depois do primeiro livro, mas também alguns anos mais à frente na vida deles. Difícil foi se despedir desses personagens.

“Sessenta dias e as nossas vidas foram totalmente transformadas”

Se esta história te interessa, clique abaixo para saber mais e não deixe de seguir a autora em suas redes sociais.

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O que são os conteúdos brainrot [tradução 41]

Introdução

Como professora de italiano de adolescentes, foi impossível, no primeiro semestre deste ano, passar ilesa aos brain root italianos

No começo, eu não tinha ideia do que meus alunos estavam falando. Achei que fosse só uma brincadeirinha entre eles. Quando finalmente comecei a ver conteúdos explicando o que são esses brain root, porém, fiquei um pouco (mais) desesperada.

Se você tem a sorte de não ter ideia do que estou falando, aqui vai a tradução de um artigo publicado no Il Sole 24 ore, em 31 de julho de 2025, escrito por Marco Trabucchi. O texto original você encontra neste link.


Tradução

Rolando os conteúdos em vídeo no TikTok, você já se deparou com um tubarão usando tênis azul da Nike e cantando “tralalero tralalà” ou com um avião de guerra com cabeça de crocodilo, com intenção de bombardear cenários surreais? Então você chegou a um dos trends mais bizarros do momento: o Brain Rot italiano. Conteúdos em vídeo, gerados com ajuda da inteligência artificial generativa, nos quais personagens absurdos — como o “Bombardiro Crocodilo” ou a “Ballerina Cappuccina” — se movem em fundos psicodélicos enquanto uma voz sintética recita frases sem sentido. Vídeos nonsense que misturam ironia, surrealismo e, muitas vezes, provocações politicamente incorretas, geralmente ultrapassando o limite do bom gosto. 

Um dos primeiros vídeos que contribuiu para definir o imaginário dessa trend, que reescreve a estética do meme contemporâneo, foi “Tralalero Tralalà”, no qual um tubarão antropomórfico, com tênis azul nos pés, recita versos acompanhados de um áudio gerado por inteligência artificial. Um vídeo, postado inicialmente no TikTok, que deu início a uma avalanche de imitações e reelaborações, até atingir números record: mais de 3 milhões de visualizações globais.

O termo brain rot, literalmente “lixo cerebral”, foi escolhido como palavra do ano em 2024, pelo dicionário Oxford. Na definição dos linguistas de Oxford, brain rot é “o assumido deterioramento do estado mental ou intelectual de uma pessoa, em particular como resultado de um consumo excessivo de material considerado superficial ou pouco estimulante”. Um termo com uma longa história: já nos anos 90 era usado para criticar a má televisão, os videogames ou os quadrinhos considerados “deseducativos”. Depois chegaram as redes sociais e os vídeos breves em plataformas como TikTok, na qual o algoritmo encoraja um contínuo e sem fim rolar do feed. 

A pergunta é: o que acontece quando até o YouTube e outras plataformas de vídeo começam a incentivar a fruição desses conteúdos? Simples: muitos sofrem o efeito (principalmente os mais jovens), e alguns outros lucram com isso. Diversos criadores de conteúdo vendem vídeo-aulas, guias, tutoriais e cursos sobre como criar conteúdos virais com a IA. Instruções para criar o próprio universo “brainrot” e triunfar no TikTok.

E no Discord existem comunidades privadas nas quais os usuários compartilham entre si prompts para criar brainrot e técnicas para gerar conteúdos “extremos” ignorando as diretrizes dos softwares. De acordo com muitos observadores, não vai demorar muito para que as marcas comecem a desfrutar deste tipo de conteúdo com fins comerciais. Em resumo, os brainrot — quer queira, quer não — se tornaram um modelo de negócio, para além de uma estética.


Conclusão

Os brain root são mais um sinal de uma sociedade que precisa rever, desesperadamente, sua relação com a tecnologia, mas, sobretudo, que precisa entender que se chegamos onde chegamos — pensando em termos de desenvolvimento tecnológico e conforto — foi porque muitas pessoas antes de nós pensaram e pesquisaram incansavelmente.

Estamos nos deixando levar pelo caminho mais fácil, pelo “não ter que pensar”, pela lei do mínimo esforço. E os resultados disso são (e serão cada vez mais) desesperadores.

Você já tinha ouvido falar do brain root italiano? O que acha disso?

Aos teus pés — Michelle Passos

Título: Aos teus pés (Duologia “O jogador e a bailarina”) 
Autora: Michelle Passos
Editora: Publicação independente
Páginas: 312
Ano: 2015

Sinopse

A vida nunca foi fácil para Marina Casanova, mas ela sempre devolveu na mesma moeda. Apesar da grande insistência de seu pai em ser um cara arrogante e persuasivo das formas mais improváveis e cruéis, ela jamais desistiu dos seus sonhos e foi por isso que deixou para trás a sua vida na cidade de Sacramento, com destino ao seu grande objetivo na capital, São Miguel. Era para ser tudo como ela planejou: treinar, dedicar-se e então ser admitida como uma bailarina profissional na mais conceituada e famosa escola e companhia de dança do país, a Special Corpus Ballet. Mas quis o destino que Frederico, mais conhecido por seus amigos e fãs como Fred, o cara mais popular do time de futebol da Universidade de São Miguel, cruzasse o seu caminho, trazendo com ele descobertas, confusões, outras opções e sentimentos às vezes contraditórios, mas acima de tudo, verdadeiros.

Para Frederico Lamarck, um rapaz bonito, dedicado ao esporte e apaixonado por sua família, Marina é tudo aquilo que ele nunca soube estar esperando e ao mesmo tempo tem certeza de que ela terá a chave de muitas respostas que ele precisa. Prestes a ser reconhecido como o maior jogador da história de sua universidade, Fred, além de apaixonado, vê a vida lhe encurralando e o obrigando a admitir para todos coisas que jamais pensou fazer. E, claro, a pagar pelas escolhas erradas que um dia fez.

Resenha

Crescer numa família amorosa, mas com um pai terrível, não deve ser coisa fácil e, por isso, Marina Casanova tinha um plano muito claro: juntar dinheiro, fugir de Sacramento — sua cidade natal — e tentar se tornar uma bailarina profissional em São Miguel, a capital.

“Olho pela janela, enxergando pela última vez a pequena rodoviária de Sacramento sumir das minhas vistas e cada uma de suas ruas que vão ficando para trás me dão medo e, ao mesmo tempo, esperança”

Ao menos Marina tem com quem contar na Capital: Luciana (ou Lu), sua melhor amiga, faz faculdade lá e tem um espaço esperando por Marina em seu apartamento. 

“A única coisa que me deixa, de fato, tranquila, é saber que a Lu está lá me esperando, porque deixar tudo o que você é e tem para trás sem ter o mínimo de apoio moral, deve ser mais difícil do que qualquer coisa nessa vida”

Claro, porém, que nada será simples (afinal, esta história precisava existir) e, logo na primeira noite, Lu arrasta Marina para uma festa e lá ela conhece aqueles que se tornarão seus amigos (Sam, Le, Cindy, Tuca…) e também o cara que vai tirá-la do prumo: Frederico Lamarck.

“Eu assumo que cresci uma garota rebelde e que contrariar meu pai era meu passatempo favorito, mas quando olho para o Fred, penso que nem em mil vidas meu pai esperaria por uma coisa como essa, porque ele é definitivamente o oposto dos sonhos e expectativas do senhor Carlos”

Fred é o sonho de muitas garotas — tanto é que elas realmente fazem de tudo para chamar sua atenção — mas não é nada do que Marina buscava na capital, afinal, ela só queria realizar seu sonho e ter dinheiro suficiente para trazer sua família para perto de si.

“Quando se tem pressa de perseguir seus sonhos, a vida parece dificultar às vezes”

Fred também não esperava por Marina. Ao menos não até conhecê-la. Além de lindo, educado e divertido, ele é o capitão do time de futebol — que finalmente tem chances de ganhar o campeonato — e também tem um sonho bem claro: se tornar um jogador profissional.

“Porque cada um sabe com que dom nasceu, qual sonho deseja tornar realidade, qual seu objetivo de vida. O meu é viver de bola em São Miguel”

E não se engane com eu quase me enganei algumas vezes: apesar de parecer, Fred (e seu irmão, Leandro) não é um bad boy.

“O Fred é um cara muito bom, amiga”

Apesar dos irmãos Lamarck arrasarem corações, eles também são donos de corações enormes e buscam sempre o melhor para as pessoas que estão ao redor deles.

“Nunca medi esforços pelas pessoas que eu amo, com ela não será diferente”

Assim, nesse romance bem ao estilo filme teen da sessão da tarde, somos envolvidos por uma história que fala sobre sonhos e paixões, mas também sobre família, amizade e dificuldades.

“É preciso coragem para enfrentar o caminho mais longo”

Através de Mari e Fred, mergulhamos no mundo do ballet e do futebol, descobrindo muitas camadas (boas e ruins) das duas atividades.

“Fico olhando com cuidado a forma como ele domina o jogo e parece tão invencível com sua chuteira nos pés. É assim que me sinto com as minhas sapatilhas”

É inevitável torcer pelos protagonistas, não apenas como casal, mas como pessoas que merecem o melhor, por compartilharem sempre o melhor delas.

“Eu nunca pensei que São Miguel poderia me trazer tantos sentimentos diferentes ao mesmo tempo”

A narrativa é envolvente. Os capítulos acabam sempre com um gostinho de quero mais e o livro termina nos fazendo ansiar pelo segundo volume, que, claro, li logo em seguida. 

“Marina fala com os olhos sem nem precisar usar a boca e isso me tira do eixo”

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